Livro Loucos pela Índia

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Livro Loucos pela Índia

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“A Índia enlouquece ou os loucos é que vão à Índia?”

Um psiquiatra, Regis Airault, constatou que, de Mumbai a Goa, de Deli a Pondichéry, uma verdadeira síndroma indiana atinge todos os Ocidentais – na sua maior parte adolescentes e jovens adultos – que vão a este país. Aí, mais do que em qualquer lugar e de uma forma mais espectacular, parece que a nossa identidade vacila.

Pessoas até então indemnes a qualquer desordem psiquiátrica sentem subitamente, sem tomar drogas, um sentimento de estranheza e perdem o contacto com a realidade. O mais curioso é que quase todos estes problemas não têm continuação. Chegado a casa, o viajante guarda mesmo deles uma boa recordação e, algum tempo mais tarde, não tem senão uma ideia na cabeça: voltar à Índia…

Então o que é que nos atrai na Índia? Por que é que lá somos tão frágeis? E o que nos ensina sobre nós mesmos esta experiêncua, que transforma em profundidade a nossa visão do mundo?

EXCERTOS

A experiência indiana convida a uma exploração do originário. Ela reactiva a parte mais arcaica do pensamento, que está na própria raiz dos processos de simbolização. Assim, a Índia interroga em nós a tenra infância, em particular nos adolescentes, dos quais conhecemos o estranho parentesco com esta época da vida. Ela faz ressoar o harmónico e acorda antigas angústias: fantasmas de devoração, de parcelamento e aniquilação, mas também de fuga. Na Índia vive-se nu, ou quase. Temos a impressão de estar numa espécie de bolha, de cavidade húmida e quente, atemporal, onde mesmo a comunicação é suposta ser feita “por vibrações”. Este fantasma original de regresso ao útero maternal parece assombrar todos os indianos, que não desejam senão uma coisa: atingir o nirvana, a fusão primitiva com o “grande todo”, e dissolver-se, como um “boneco de sal”, no oceano, para ser uno com o Universo.

(…)

A dimensão regressiva da Índia mantém o viajante num sentimento de todo-poderoso. Ele reencontra o conforto do narcisismo primário infantil e a omnipotência que lhe é atribuída. Este regresso inconsciente e momentâneo a um estádio precoce de indeferenciações Eu/não-Eu onde o bebé e a mãe são apenas um, dá a impressão de que tudo se torna possível. Daí a tomar-se por um super-homem e a reivindicar a imortalidade, é só um passo.

(…)

No mesmo tempo em que o seu eu se fende, o estrangeiro é submetido às solicitações permanentes dos indianos da rua e aos seus olhares. Eles perscrutam-no, observam-no, seguem-no, questionam-no por vezes até à indiscrição, comentam os seus actos – o que não deixa de lembrar a nosografia psiquiátrica: ideias de referência, automatismo mental -, depois perguntam-lhe pela milionésima vez: “Where do you come from?” que poderíamos traduzir por: “De que planeta vem?” Temos então a impressão de ser sucessivamente a rainha de Inglaterra, um extraterrestre, um bicho curioso. “You are alone?” (“Está sozinho?”), “No wife?” (“Casado?”), “Thank you, sir, and one question more?” (“Obrigado senhor e ainda mais uma pergunta”), “How do you feel? Well?” (“Como se sente? Bem?”). É-lhes difícil compreender que um ser humano possa sentir-se bem a viajar sozinho. É uma das explicações que adiantam para explicar os delírios dos Ocidentais.

(…)

A Índia é muito conveniente como “redução do universo” em grande escala geográfica, mas também à escala humana (via intra-uterina, tempo à margem). Neste país a ligação à morte, a importância dos mitos, ponto de referência metafórico das nossas respostas, e do sagrado, participam desta iniciação, porque se os ritos ajudam a inscrevermo-nos entre os outros, os mitos permitem situar-nos na ordem do mundo e o universo.

(…)

Apesar das melhoras do regresso, não é raro que os pacientes tenham uma recaída nas semanas que se seguem. No entanto isto não assombra o prognóstico, já que três quartos das pessoas de quem me ocupei não apresentaram qualquer outra perturbação depois dessa época. Se tivesse de fazer uma comparação, seria com o “regresso do ácido” que se pode constatar à distância no uso de drogas como o LSD: a pessoa que não tornou a usar o tóxico parece estar sob o efeito desse produto durante algumas horas. Ponho a hipótese da Índia ser toxicógena, agir como uma verdadeira droga, levando à dependência psíquica e física.

(…)

Alguns indivíduos “normais” conservam na idade adulta um acesso ao sentimento oceânico, e outros não. Esta “abertura” é encorajada por certas culturas que “aperfeiçoaram geração após geração técnicas de indução e códigos de decifração desta experiência”. Então porque é que a nossa civilização a negligencia e, no pior dos casos, faz dela uma doença mental, e no melhor, uma simples “errância” regressiva? Será o sentimento oceânico uma ilusão necessária? Uma espécie de amor que une o homem ao universo, tão vital para a sobrevivência da espécie humana como o amor que o liga ao próximo? Mas não será o amor a mais comum das viagens patológicas?

Peso 0.2 kg
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